Algo está acontecendo aqui

Falar que vivemos tempos de mudança já deixou de ser novo. Tudo o que estava em seu lugar mudou com o acesso à informação através da internet nos últimos 20 anos. Por um lado as pessoas estão mais individualistas, mas também mais atentas ao que acontece ao redor, ao que consomem, ao meio ambiente, ao que fazem com o seu tempo. Nossas ideias sobre comportamento, idade e profissão não são as mesmas que nossos pais tinham.

Mudar é o verbo mais conjugado. Estamos percebendo que podemos nos deslocar de bicicleta e não termos mais um carro; que cozinhar nosso alimento é mais saudável do que consumir comida ultraprocessada; que 40 anos não é mais meia-idade; e também que é possível mudar as escolhas profissionais a qualquer hora.

Aquele cenário da década de 1980, no qual se definia uma profissão na adolescência e ela seguiria para toda a vida mirando uma aposentadoria de ócio, já não se encaixa na atual conjuntura. Hoje, trocar de profissão, fazer novas escolhas, experimentar outros percursos faz parte da história de muitos. Seja o profissional liberal que descobriu um talento para a cozinha ou o funcionário público que busca novas experiências profissionais, os jornais trazem todo dia novos negócios vinculados a uma trajetória pessoal de autodescoberta. As faculdades estão implementando incubadoras de startups – em um movimento ainda incipiente de uma educação para o empreendedorismo –, ofertando uma preparação para esta nova realidade do trabalho onde as relações são horizontais, estão longe da lógica chefe-funcionário e a formação continuada é uma necessidade para se manter no mercado.

Como nos encaixamos nesta nova realidade onde não existem mais caixas? O que pode ser motivo de incerteza para alguns, para outros pode ser a abertura de infinitas possibilidades. Outro dia li uma matéria de uma farmacêutica que largou uma carreira de 20 anos para abrir um pet café1. Ou seja, não é mais café, não é mais pet shop, mas um café com a temática pet onde as duas coisas funcionam ao mesmo tempo.

Nos últimos tempos, venho fazendo algumas reflexões e juntando diversas pontas do mundo corporativo, como a criatividade, o olhar filosófico e as questões próprias da administração, que são fruto do meu próprio percurso não linear – em que de uma graduação em História migrei para uma vida profissional na área de Comunicação e uma especialização em Filosofia Clínica2. Esses caminhos me fazem refletir já há algum tempo sobre o quanto os desvios profissionais podem agregar positivamente à nossa atividade profissional, promovendo uma transdisciplinaridade na prática – como o caso da farmacêutica na matéria acima.

O estudo da Filosofia Clínica permitiu a aplicação de uma escuta cuidadosa no trabalho de design. Juntando essas duas pontas que não estavam próximas, pude ajustar as demandas dos clientes a caminhos criativos e criar novos processos de trabalho. Isso trouxe resultados mais assertivos, pois traduzem a singularidade de quem os solicitou, com o efeito de maior engajamento na implementação das ações de comunicação. Esta escuta atenta também é uma ferramenta poderosa para olhar as transformações do mundo corporativo, pois nos permite perceber os percursos não lineares como uma manifestação da singularidade dos profissionais. Ela nos possibilita também enxergar sinais de que pessoas não se enquadram mais no que pensaram sobre si mesmas durante 10 ou 20 anos, e hoje precisam buscar não somente um novo posicionamento para o seu trabalho, mas para a sua vida.

Esse processo silencioso e transformador parece aquilo que Bob Dylan anunciou na música Ballad of a Thin Man em 1965: “Algo está acontecendo aqui / Mas você não sabe o que é”.

 

1. Vide glo.bo/2mWhRcC

2. Lúcio Packter propôs a sua versão da Terapia filosófica chamada de Filosofia Clínica, nos anos 1980, a Filosofia Clínica, segundo Packter, “[…] direciona e elabora, a partir da metodologia filosófica, procedimentos de diagnose e acompanhamento endereçados às questões existenciais” ou, –- em outras palavras, – “trata-se da “utilização da filosofia aplicada ao indivíduo”. Cabe ressaltar que na Filosofia Clínica de Packter os conceitos de doença e de patologia deixam de existir, havendo, então, representações de mundo que originam maneiras singulares de existência. Em decorrência disso, fica explícito que a Filosofia Clínica não promove curas, mas auxilia na tentativa de resolução de choques estruturais que causam um mal-estar existencial à pessoa. (Wikipédia)